sexta-feira, 24 de junho de 2016

Partícula


Partícula. 

Por Vitalina de Assis.






Já deu por hoje, por amanhã e por todos os dias que ainda tenho debaixo do sol. 

Já  quase me esgoto. Após o silêncio a seguir meus passos, calar meus lábios, esconder minha vergonha despudorada, poupar-me-ia deste vexame?

E o que dizer ou fazer, se a gentil vida, em uma cartola mágica, não escondeu para mim o amor?

Ressentir-me-ia da vida, se assim o fosse? Fecharia os olhos, retendo na retina a ingratidão por dias vividos na incompletude?

O que sei eu da completude, para avaliar o que me falta? Quem nunca se completa, não tem parâmetros para comparar. 

Entra no dia, sai da noite, amanhece sem o sol, sem as estrelas anoitece, acorda e percebe que ainda é noite para sentimentos hibernais.

Vai-se o inverno e a primavera, nada prima, em meio a flores e perfumes. 

Sou um corpo inerte. Sou Folha dispersa. Sou segredo inconfessável. Sou a muda de dissabores. Sou ruído, fala torpe. Sou silêncio que não se cala. Sou voz que não se escuta. Sou sobra, nunca o todo. Resto, poeira, pó.

Um sopro. Fragmento. Átomo de mim.



quinta-feira, 22 de maio de 2014

Resgate.





Sentiu um rubor na face que avaliou ser um sentimento de vergonha pelo o que acabara de fazer, mas como livrar-se da alegria pelo feito? Como impedir que sua pele eriçasse de embriaguez e por prazeres não mais contido? Poderia considerar este feito uma vitória? Um resgate de si mesma?

Lembrou-se de sentimentos que queriam ilha-la a todo custo, da dor que cortava a sua alma e negava toda e qualquer incidência solar sobre suas trevas. Que luz e brilho incidiam sobre si? Questionava seu estado de espírito agora visivelmente alterado.

Não carregava e nem pesava sua alma. Estava leve, flutuava. Dizia-se feliz. Rompera afinal? Que limites e privações lançava para longe de si? Decidiu não pensar. Apropriou-se de uma vitória, talvez momentânea sobre males e dores. Não pensaria, importar-se tampouco. Decidiu redigir sua historia de liberação.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Inércia.






Só consigo me resolver, virar a página, quando esgoto minhas palavras, se é que isto é possível. Já não fazia mais sentido enviar mensagens, quando, ao invés de respondê-las com o entusiasmo de antes, "monossilabicamente" inferia-me o seu desinteresse, que dizia ser trabalho, reuniões, almoços, viagens, uma correria desenfreada. Li perfeitamente nas entrelinhas, o que não ousava escrever na pauta da melodia que minha alma desejava executar. 

Quando nossos olhares encontraram-se, poderia jurar que uma química e empatia recíproca se instalara,  mas inexplicavelmente, meses depois, não se encontrava mais disponível o olhar que me aquecia e ao fazer-se presente ao telefone ou respondendo mensagens, era simplesmente a  gentil resposta a  um, "perceba-me aqui, por favor!"  Sem os desejados adjetivos que fazia dançar meu espírito e rodopiar minha alma,  uma formalidade  se impunha a contragosto do meu querer. 

Meu querer absoluto era ter-te,  perder-me nos teus abraços, degustar teu gosto, sentir tua força, tua delicadeza, encontrar-me em prazeres, gozar. No entanto, ele se fora! Deixou-me ao relento dos meus desejos e sequer explicou-se. Não se deve tratar uma mulher assim. Jamais! 

Mulher é sentimento, pele, percepção. Necessitamos ouvir e independente de um sim ou  não, isto na verdade pouco importa, o que importa é perceber que o outro considerou-nos o suficiente para terminar, se iniciou-se algo e não foi a contento no caminhar. Percebemos a magia, vemos suas cores, sentimos seu aroma, mas somos incapazes, com a mesma sensibilidade e  perspicácia perceber que o encanto quebrou-se, embora o intuíamos em nosso mais profundo sentir. Mas o que a intuição? Apenas a percepção direta, clara e imediata de uma possível verdade, sem o auxílio do raciocínio. Isto é ser mulher, ser desprovida da racionalidade, não baseamos nossos sentimentos na razão e na lógica. Razão e lógica é a forma masculina de amar ou desamar alguém, nós, mulheres, transitamos nossos sentimentos em outra "lógica", o que significa que a mesma é o desejo autêntico de que se compreenda que, o que é o óbvio para olhares masculinos, não é tão óbvio assim em nossos espelhos do sentir. 

Nossos espelhos refletem imagens que zombam da razão, que zomba do nossos sentimentos e ficamos entrincheirados, entre um e outro. Na falta de um cuidado maior com o que sentimos ou intuímos, nos ressentimos recolhendo ao nosso âmago, não o encantamento que tirou-nos da nossa mesmice diária e nos fez sonhar, mas o ressentimento provocado pelo descaso que  substantivou-se em tantos compromissos inadiáveis, números que ocuparam o lugar do ser. Nesta roda viva que nos degusta, "cativar" não comporta mais responsabilidade com alguém que cativamos?  Cativamos "aquilo" (entenda-se por trabalho, compromissos, metas) e estes "cativados", tornam-se ABSOLUTAMENTE responsáveis, eternamente responsáveis em prender-nos no imediatismo, na urgência, cumprindo fielmente sua proposta de manter-nos na periferia do que realmente importa. Não giramos mais em torno do nosso umbigo onde se era mais fácil alcançar o outro, embora o "girar em torno do umbigo"  denote a ideia de afastamento, o estar longe do umbigo é, irremediavelmente estar desligado, cortado do que realmente pode fazer-nos bem. Precisamos urgentemente reatar laços, submeter-nos a uma dependência saudável  do outro, das relações, dos sonhos e desejos que farão com que compreendamos de fato a verdadeira essência do que versou  Saint Exupéry, imortalizada no romance: O Pequeno Príncipe: "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas".

 Eternamente pode ser  um peso do qual queremos fugir todo tempo. Eu não imputaria um peso deste porte a  nada neste mundo tão efêmero, mas considero parte, desta maneira de pensar ou seja, somos responsáveis  em pontuar e deixar claro, dentro do absolutamente possível, o que sentimos, não sentimos, queremos, não queremos mais. Saia da inércia.

Só consigo me resolver, virar a página, quando esgoto minhas palavras, se é que isto é possível. Já não fazia mais sentido enviar mensagens, quando, ao invés de respondê-las com o entusiasmo de antes, "monossilabicamente" inferia-me o seu desinteresse, que dizia ser trabalho, reuniões, almoços, viagens, uma correria desenfreada. Li perfeitamente nas entrelinhas, o que não ousava escrever na pauta da melodia que minha alma desejava executar. 

Quando nossos olhares encontraram-se, poderia jurar que uma química e empatia recíproca se instalara,  mas inexplicavelmente, meses depois, não se encontrava mais disponível o olhar que me aquecia e ao fazer-se presente ao telefone ou respondendo mensagens, era simplesmente a  gentil resposta a  um, "perceba-me aqui, por favor!"  Sem os desejados adjetivos que fazia dançar meu espírito e rodopiar minha alma,  uma formalidade  se impunha a contragosto do meu querer. 

Meu querer absoluto era ter-te,  perder-me nos teus abraços, degustar teu gosto, sentir tua força, tua delicadeza, encontrar-me em prazeres, gozar. No entanto, ele se fora! Deixou-me ao relento dos meus desejos e sequer explicou-se. Não se deve tratar uma mulher assim. Jamais! 

Mulher é sentimento, pele, percepção. Necessitamos ouvir e independente de um sim ou  não, isto na verdade pouco importa, o que importa é perceber que o outro considerou-nos o suficiente para terminar, se iniciou-se algo e não foi a contento no caminhar. Percebemos a magia, vemos suas cores, sentimos seu aroma, mas somos incapazes, com a mesma sensibilidade e  perspicácia perceber que o encanto quebrou-se, embora o intuíamos em nosso mais profundo sentir. Mas o que a intuição? Apenas a percepção direta, clara e imediata de uma possível verdade, sem o auxílio do raciocínio. Isto é ser mulher, ser desprovida da racionalidade, não baseamos nossos sentimentos na razão e na lógica. Razão e lógica é a forma masculina de amar ou desamar alguém, nós, mulheres, transitamos nossos sentimentos em outra "lógica", o que significa que a mesma é o desejo autêntico de que se compreenda que, o que é o óbvio para olhares masculinos, não é tão óbvio assim em nossos espelhos do sentir. 

Nossos espelhos refletem imagens que zombam da razão, que zomba do nossos sentimentos e ficamos entrincheirados, entre um e outro. Na falta de um cuidado maior com o que sentimos ou intuímos, nos ressentimos recolhendo ao nosso âmago, não o encantamento que tirou-nos da nossa mesmice diária e nos fez sonhar, mas o ressentimento provocado pelo descaso que  substantivou-se em tantos compromissos inadiáveis, números que ocuparam o lugar do ser. Nesta roda viva que nos degusta, "cativar" não comporta mais responsabilidade com alguém que cativamos?  Cativamos "aquilo" (entenda-se por trabalho, compromissos, metas) e estes "cativados", tornam-se ABSOLUTAMENTE responsáveis, eternamente responsáveis em prender-nos no imediatismo, na urgência, cumprindo fielmente sua proposta de manter-nos na periferia do que realmente importa. Não giramos mais em torno do nosso umbigo onde se era mais fácil alcançar o outro, embora o "girar em torno do umbigo"  denote a ideia de afastamento, o estar longe do umbigo é, irremediavelmente estar desligado, cortado do que realmente pode fazer-nos bem. Precisamos urgentemente reatar laços, submeter-nos a uma dependência saudável  do outro, das relações, dos sonhos e desejos que farão com que compreendamos de fato a verdadeira essência do que versou  Saint Exupéry, imortalizada no romance: O Pequeno Príncipe: "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas".


 Eternamente pode ser  um peso do qual queremos fugir todo tempo. Eu não imputaria um peso deste porte a  nada neste mundo tão efêmero, mas considero parte, desta maneira de pensar ou seja, somos responsáveis  em pontuar e deixar claro, dentro do absolutamente possível, o que sentimos, não sentimos, queremos, não queremos mais. Saia da inércia.

Sinestesia.





Sabores e cores, importa?





Opto pelo prazer!

Inesperado.






Abriu a porta.
Mirou seus olhos com um olhar ardente, mordiscou os lábios, aproximou-se, e beijou-a suavemente, intensamente, demoradamente.
Serviu-lhe vinho tinto, cuidou da iluminação, e uma música envolvente se fez ouvir no silêncio.

Perdeu-se em seus braços, e entre muitos abraços, deixou-se seduzir como se preciso fosse.

Seduzida, assumiu o controle.
Beijou, “rebeijou”, deixou-se beijar entre beijos, cheiros e seios... e sem lugar, encontrou-se...
não mais em sonhos e meros desejos ao vento.
Apenas eu.
Apenas você.
Uma noite inteira para se perder.
Beijou cantos e recantos do corpo.

Matemática insana.








Sobra saudade,
diminui afago, multiplica a dor
dividir? Impossível.

Entrega.




  

                                             Este beijo de língua, 
                                                   deixa-me estática
                                                         permito-o
                                                               por
                                                                    cantos
                                                                          e recantos do
                                                                               corpo







                                                                                    na mesma intensidade,
                                                                               devolvo-os
                                                                        agora por
                                                                recantos e cantos.
                                                         Um percorrer inverso.



De língua 
sem mãos
corpos 
aguentar até quando der.